Oito da manhã. Um carro de som anuncia um grande evento na terra de Oz. Maravilha, hein! Só que eu estava dormindo e meu quarto fica praticamente no meio da rua. Tudo bem ter ido dormir às três. Tudo bem ter ido dormir tardíssimo a semana toda e ter acordado hipercedo todos os dias. Ok. Levanto e vou cuidar da vida.
Chamar o cônjuge, fazer café, arrumar malas. Olheiras pretas. Sono de matar.
‘Você dirigi hoje?’ ele pergunta. ‘Sim.’
Já sabia: o dia ia ser longo…
Malas: detesto! Fazer o que? Roupas, toalha, chinelo, biquini, pijama, livros, filmes, notebook, câmera, tripé, shampoo… DEUS ME LIVRE! Peguei tudo? Travesseiro!
Banho e buscar a sogra. Agora começa a aventura!
Não sei o que acontece com as pessoas motorizadas em dias atípicos: se já dirigem mal, nestas circunstâncias simplesmente se transformam em tartarugas mancas com reumatismo. Primeira provação do dia: controlar o humor durante o trajeto até a casa da sogrinha. Por ela vale a pena.
Música, conversa fiada com o marido e vamoaê.
Caminhões, gente, carros, bicicletas, dinossauros, ETs… tudo no meio do caminho! Mas é véspera de natal… (será que os três reis magos teriam paciência de seguir uma estrela no meio do trânsito caótico deste país?)
Chegamos na sogra. Oi pra todo mundo, feliz natal, beijo, tudo de bom. Mala no carro. Opa! Agora vai. Vai? Vai nada…
Campeonato de lesmas sedentárias… eu atrás. Corta tudo, Renata! Ah! Corta aqui, ali, direita, esquerda e… avancei dez metros! Sacanagem. Mentira. Não é possível. Respira fundo e vai.
Uma barca parada no meio do caminho. Tento ultrapassar. O cretino sai junto sem olhar e sem dar seta e me fecha, quase bato o carro. Buzina! AVC…
Respira, Renata.
Uma da tarde: olhos virando de fome. E agora? Shopping Villa Lobos. Hoje definitivamente é dia de penitência.
Gosto de um restaurante natureba chamado Seletti. Sempre peço a mesma coisa: Arroz 7 grãos, purê de mandioquinha e hamburguer vegetariano. Suco. Resolvi incrementar: legumes grelhados. Quem é o atendente que faz meu pratinho? Aquele que está em treinamento. Puxa… só porque estávamos com pressa. Demora, comida quente demais: queimo a boca, acabou o sabor.
Respira, Renata!
A diversão do dia foi ir ao banheiro: o vaso tem uma proteção de plástico que gira quando colocamos a mão num sensor. Uau! O futuro chegou! Foda-se se tá tudo superaquecendo e vamos morrer envolvidos numa bolha de plástico. É moderno e chique!
Hum…docinho cairia bem… degustação de frozen. Delícia! ‘Rô, sorvetinho?’ ‘Sim.’ ‘Fran?’ ‘Não.’ Ok. A atendente? Não muito esperta. Respira, Renatinha.
Sorvete caríssimo, mas gostoso. Vamobora!
Cadê o carro? Roda, roda, roda…
Puta que pariu! Todos os ângulos do estacionamento são iguais. 15 minutos depois: Acho que está no andar de cima…
Nós três: campeões brasileiros de estupidez no estacionamento. Roxa! (raiva e vergonha de mim mesma…burra burra burra).
Marginal Pinheiros. Marginal Tietê. Gasolina no osso.
‘Depois do shopping D eu paro no posto, ok?’ ‘Ok.’
Pista local, anda, anda, anda… pára! Parou… Trânsito ferrado. ‘Ai meu Deus! Estão reformando essa porra!’
Ah, mas sou uma grande motorista! Corto aqui, ali e pronto! Posto de gasolina.
Eu sou tão inteligente que parei na primeira bomba: gás natural. Meu carro é a gasolina. Segunda bomba: etanol. Terceira bomba: gasolina! uhuu! mas para chegar lá dei uma fechada num fulano muito paciente que me deixou passar (deve ter visto na minha cara que não sou confiável).
Enquanto abasteço, um senhor de uns 60 anos me encara. Acho que percebeu que uso o óculos de sol por cima do de grau. Meu charme.
Gasolina no tanque, tudo pago, bora!
Lá se vão mais uns 15 minutos no meio dos carros parados, das pessoas pasmando… ai ai…
Enquanto isso,o Thom canta no meu ouvido: ‘Its the devil’s way now. There is no way out. You can scream it, you can shout, but it’s too late now! You have not been paying attention, paying attention, paying attention’ (Era provocação? sim, eu deveria ter visto a gasolina antes…não adiantava mais me saculejar no carro. Eu estava parada num trânsito ridículo simplesmente porque precisei abastecer. A pista expressa fluía poeticamente. E eu na local).
Respira, Renata!
Consigo sair da local, entrar na expressa. Passa a ponte Aricanduva, passa Guarulhos… não é que eu tô conseguindo?
Trabalhadores! ou Ayrton Senna… que seja. Rodrigo dormindo, eu e sogra papeando. Um sono horroroso. Passa o pedágio, eu sempre em frente. A té que me lembro que sempre me esqueço se o caminho está correto (troféu anta do ano para mim! Dez anos fazendo o mesmo caminho, dez anos com a mesma dúvida). ‘Rodrigo! Acorda rápido! Me perdi. Passei da saída.’ ‘Você nem chegou em São José ainda.’ ‘Ah… desculpe… volte a dormir…’ Eu quase dormindo também.
Passo o segundo pedágio: preciso de um café! Café ruim, coca-cola pior. Náusea.
Volto pro carro e começa a chuva. A-D-O-R-O dirigir na chuva! Na estrada então? Minha pulsão de morte, sabe? Fico pensando nas catástrofes…
A estrada é uma selva de imbecis, e eles não se importam se estão molhados ou não: querem passar por cima! Uma disputa genital: quem tem o pau maior? O cara do carro X importado, afrescalhado bla bla bla ou o cara do carro Y, rebaixado, filmado, envenenado…loko! (é…os manos descobriram o litoral norte tbm…)
Eu não tenho saco: se grudar na minha traseira vai ficar lá! Se piscar o farol me mandando sair da frente, ignoro! Eu não tranco o trânsito. Aliás, corro muito para um Fiestinha fubanguinho como o meu. Mas não suporto gente mal educada. Dou passagem até a minibug sem nenhum problema. Não quero ser a do pinto maior. Nem tenho um! Só quero andar em segurança.
Fiz minha pintura de guerra e encarei a Tamoios. Mas no fundo sou da paz… Minha política: Quer passar, passa. Mas não precisa me matar para isso.
Serra: graças a Deus! Ah, mas tinha que ter um passo de elefantinho na minha frente. Moleza… sono… ouvindo Let Down (bom momento para passar por cima do guardirreio e acabar com esta existência inútil… mas tinha mais duas pessoas no carro. Elas não merecem. Ok! suicídio adiado).
Caraguatatuba! Opa, tá quase. Trânsito, radares, gente mole. Entrada de São Sebastião: uma lágrima quase escorre. A tortura está acabando!
Na serrinha, faço uma curva para um lado, e o Fiestinha tenta ir para o outro! Tá louco, meu? Rodrigo diz: ‘Dormiu?’ Eu grito: ‘Não! O carro tá louco!’ ‘Você que dormiu.’ (Pânico) ‘Esse carro tá doido! Não dormi!’ ‘Calma…’ ‘…’
Peço ao Rô para ligar para minha mãe e perguntar o que precisamos comprar no mercado. Bebidas. Opa! Agora sim!
Pão de Açúcar: Cerveja, vodka… Fila! Vam’bora!
Adega da cidade: cinco paus a mais na mesma garrafa de Vodka! Ok, não tem fila…
Finalmente a casa da mamãe: ‘Feliz Natal!’ ‘Eeeehhhh!!’ ‘Saudade!’
smack, smack…
‘Mãe, estou um pouco cansada…’
Sofá…
ZzZzZz